O SEGREDO DAS LINGUAS l O curso de língua estrangeira ainda pode fazer parte da sua vida.

Como pensar em inglês? Aprenda a pensar em inglês!

Você já tentou pensar em inglês? Ou já viu alguém falando que agora conseguia pensar em inglês seja porque morou fora ou passou muitos anos estudando?

Aposto que você já ouviu isso em algum lugar. É por isso que nesse texto vamos discutir essa noção meio vaga do que é pensar em uma segunda língua. 

Então, é possível pensar em inglês?

Não é possível pensar em inglês. Isso se deve: sua idade, você não ter aprendido inglês quando criança antes da puberdade e ao fato de que nosso pensamento não se estrutura em nenhuma língua. 

Vamos desenvolver cada questão com mais detalhe, porém adianto que o fato do seu cérebro ser pouco plástico após a puberdade e o processamento de segunda-língua no nosso cérebro é essencial para entender essa questão. 

Para entender porque você nunca vai pensar em inglês, temos que entender primeiramente como funciona nosso desenvolvimento de maneira simplificada.

À medida que a criança cresce, sua fala é cada vez mais elevada à função de pensamento. Esse discurso caracteriza-se por ser condensado em sua semântica e sintaxe. Neste ponto, diríamos que o pensamento se tornou algo verbal. 

Nosso pensamento seria então verbal, mas não ‘em uma linguagem’. Isso significa que a linguagem e pensamento estão conectados, mas estão em planos separados. O que queremos dizer é que em nossas cabeças, os pensamentos aparecem ligados à palavras.

O problema é que a linguagem apenas organiza o pensamento e lhe dá estrutura e forma. Nosso processo pensamento-fala seria algo como o esquema abaixo: 

Motivação/necessidade de dizer algo > pensamento inicial > discurso interior (semanticamente e sintaticamente condensado) > elaboração de vocabulário e gramática necessários > fala 

As crianças ao longo de seu desenvolvimento param de vocalizar o que se passa na suas cabeças e migram completamente para a fala interna. Isso ainda não significa que elas estão pensando em uma língua, o que fazemos com a língua é atrelá-la ao pensamento para decodificá-lo.

Ainda assim, mesmo com o que foi explicado acima, que fique claro que qualquer pessoa pode internalizar pelo menos parte da L2. Isso significaria que parece ser possível usar sua L2 para funções cognitivas dependendo do seu nível de proficiência.

Isso indicaria que dependendo da tarefa que você aprendeu em inglês, seria mais fácil para o seu cérebro decodificá-la em inglês. Nestas instâncias apenas, poderíamos dizer que daria para pensar em inglês.

Vou me usar como exemplo: eu estudei Letras/Inglês em uma universidade federal, ok? Como meus cursos de Linguística eram todos em inglês, para mim “pensar” em inglês na hora de falar de Linguística é muito mais fácil.

Isso acontece por consequência do fato que o meu repertório em está em inglês na minha cabeça quando eu preciso de falar alguma relacionado a área de Linguística, fica muito mais fácil processar em inglês. 

Mas isso não significa que a base do meu pensamento é em inglês. Como todo meu insumo cultural desde criança é em português, eu vou para sempre processar meus pensamentos em português. E por mais que eu tenha alta proficiência em inglês, eu nunca vou pensar neste idioma.

Pensar em inglês, cultura e idade

Além disso, quando falamos uma língua o que vem à tona é o nosso repertório cultural. As línguas surgiram para passar a cultura do homem para frente e portanto, nós as inventamos do zero para tanto. 

Consequentemente, aprender inglês é também aprender a cultura dos locais onde se fala inglês. O problema, para nós falantes de português é que nós vivemos em uma cultura de um país de língua portuguesa.

Ou seja, todo o nosso insumo linguístico foi montado em português por causa da nossa cultura brasileira. E ainda temos mais um agravante, que é a plasticidade cerebral.

Se o nosso cérebro realmente tem um período de maturação para aprendizagem de línguas, o que alguns linguistas vão chamar Período Crítico, então só conseguiríamos absorver o insumo linguístico e cultural para se tornar ntivo quando crianças.

De acordo com essa hipótese, aprender uma língua se daria melhor nos anos antes da puberdade (algo em torno de dez anos) porque o cérebro estaria extremamente apto a absorver o que aprendemos ao nosso redor. Passado esse período, ele perderia a plasticidade (capacidade de absorção) e teria dificuldades em absorver novos conteúdos.

Portanto, talvez apenas crianças que tenham muito insumo linguístico e cultural consigam pensar em inglês porque aprenderam o idioma antes do período crítico e receberam um enorme insumo cultural também.

Dicas sobre pensar em inglês que não fazem sentido

Quem espalhou a ideia de que é possível pensar em inglês?

Primeiramente temos que entender da onde veio essa ideia de que um dia você ia pensar em inglês. Uma das principais fontes desses mitos são as escolinhas de idiomas. Os problemas são dois: professores sem repertório que propagam mitos do aprendizado e marketing mentiroso. 

Com relação aos professores não custa repetir que, como as escolinhas empregam muita gente sem formação, esses professores acabam propagando mitos do aprendizado de idiomas de maneira desembasada. Infelizmente, mitos continuam sendo mitos.

A maioria desses profissionais está ali de passagem porque querem fazer uma graninha. Muitas vezes, eles nem aspiram a ser professores e por isso acabam falando bobagens sobre aquisição de segunda língua porque “tiraram da cartola”. 

E infelizmente o número de sites mentirosos ou com artigos ridiculamente superficiais é enorme. Por isso, antes de ler qualquer coisa na internet, procure saber quem está falando e desconfie muito. 

Um outro ponto que envolve as escolinhas de idiomas é o marketing. Precisamos urgentemente aprender a distinguir marketing de realidade. Partimos do pressuposto de que o marketing das escolinhas de idiomas inculcou nos alunos que um dia eles vão pensar em inglês. 

Lembre-se que nem sempre escolinhas de idiomas prezam pela qualidade, muitas delas vão te prender por contrato. Então fazer um marketing mentiroso que espalha ideias desse tipo sem compromisso nenhum com a realidade é um problema.

Um outro ponto é o de que os diretores das escolas também não tem lá muita noção de aprendizado de idiomas também. Eles caem no mesmo caso dos professores ignorantes. Às vezes as escolinhas tem um diretor pedagógico, o que pode abrandar a situação. 

Um outro caso é o de pessoas que ficam fazendo automarketing na internet. Muitos ficam tentando vender uma imagem de autoridade baseada em fatos que eles não têm repertório para discutir. 

Pois é, está cheio de vídeos no YouTube de gente que afirma que tem jeito de pensar em inglês e ainda tentam te ensinar métodos milagrosos para isso. Não que seja má-fé, é só ignorância mesmo. É gente dando opinião desembasada, sem noção de ciência que confunde opinião com fato científico.

Muitas vezes o conteúdo é gerado só copiando o que tem feito sucesso por aí e não é porque faz sucesso e atrai views que é cientificamente plausível. 

Tem milhões de vídeos de charlatões dando milhões de dicas diferentes sobre como pensar em inglês. Mas no fim, as dicas se resumem a estudar mais, se expor mais, ter mais afinco, ter um horário organizado e ouvir ou conversar com nativos. 

Alguma novidade? Sério que você precisava de influencer para te falar isso? Uma coisa triste sobre aprendizado de idiomas é que não tem fórmula. Infelizmente, não existe um compilado de dicas que eu possa te dar para resolver sua vida com relação ao inglês. E se alguém está vendendo dicas por aí de maneira simplista, eu desconfiaria. 

A melhor dica é: não confie muito no que vê na internet e nem no marketing das escolas de idiomas. 

Temos ainda uma terceira fonte de onde emana esse pensamento: gente que mora ou morou fora. Muitas vezes quando conversamos com parentes e amigos, a maioria acaba achando que já “sabe” pensar em inglês porque automatizou um pouco o discurso. 

Boa parte das pessoas confunde alcançar uma certa automação no idioma com pensar nele e ficam falando que sabem pensar em inglês. O problema é que isso te influencia e você acaba acreditando que um dia vai conseguir pensar na língua que está aprendendo.

É claro que uma certa automatização tem a ver com a noção de fluência, não de pensar em segunda língua.

Por fim, vimos neste artigo que é impossível pensar em inglês. Como já denunciei antes, o marketing hoje coloca você com um objetivo na cabeça. Porém, como esse objetivo é mentiroso, ele acaba virando obstáculo.

Se este artigo te ajudou, veja outros artigos e posts com expressões importantes que podem te ajudar a aprender inglês.

DAVIES, A. The Native Speaker: Myth and Reality. 2003

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