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Traduzir o inglês: porque você deve!

Se você aprende inglês, já deve ter tido dúvida se pode traduzir o inglês. É por isso que neste artigo eu vou te explicar porque a linguística diz que sim, você deve traduzir. 

Eu sei que parece loucura porque ao longo de sua aprendizagem você sempre ouviu que traduzir deveria ser evitado ao máximo. Porém o paradigma da linguística hoje é outro.

É totalmente aceitável que você traduza o inglês em sala de aula. Inclusive, quando vejo alguns “professores” falando que você não pode traduzir, sinto que às vezes estou vendo gente que não sabe nada de aquisição de segunda língua. 

Da onde vêm a ideia de traduzir o inglês?

A ideia de traduzir o inglês para aprender não é nova e data de muitos séculos. Porém, antes não se aprendia inglês e sim grego clássico e latim.

Historicamente, a tradução foi o método oficial de aprendizagem de língua por séculos. Desde a Idade Média, sabe-se que os monges aprendiam grego e latim traduzindo através de um método chamado método de tradução. 

Durante a Idade Moderna, o método de tradução continuou a ser o mais comum através de atividades de ditado e de tradução de frases soltas sem contexto. Portanto, não tínhamos nenhum foco em pronúncia ou fala, apenas estrutura gramatical.

Como o inglês ganhou força do fim da Idade Média para a Idade Moderna, traduzir o inglês em sala se tornou o método mais comum de se aprender o idioma. 

Logo após a Segunda Guerra, surgia um dos métodos mais comuns hoje em dia aqui no Brasil: o método áudio-oral ou áudio-lingual. Nesse método o aluno fica a traduzir o inglês através de listas de frases prontas da língua materna para a língua alvo.

O método audio-lingual é talvez o mais comum nas escolinhas de idiomas e é relativamente interessante nos níveis iniciais, mas em níveis avançados ele não costuma dar muito certo. 

O motivo das escolas escolherem esse método é porque ele é muito fácil de adaptar e criar um passo a passo a ser decorado pelos professores. Daí eles podem contratar gente sem formação e pagando barato. Nesse sentido, os alunos só têm que traduzir o inglês e pronto!  

No entanto, o método áudio-lingual, mesmo sendo comum em escolas de idiomas do Brasil, acabou entrando em decadência na maior parte do mundo (isso deve te dizer alguma coisa, não?). 

Veio então uma nova abordagem: a abordagem comunicativa. Nessa abordagem o professor é mais um intermediador e a tradução é totalmente permitida pois se torna mais uma ferramenta a favor dos alunos. 

Aqui a preocupação do professor é fazer do ensino algo o mais próximo possível da realidade e da necessidade dos alunos, por isso se precisar traduzir, o professor vai. 

A abordagem comunicativa trata traduzir o inglês como uma ferramenta a ser usada quando necessário, porém com parcimônia.

Então, posso traduzir o inglês?

A resposta é sim, contanto que você não dê uma aula de inglês em português é claro! Utilizar a tradução para desatar nós em sala é essencial.

Minha experiência como professor também me mostrou que quando traduzimos facilitamos demais a vida dos alunos. Muitas vezes simplesmente falar a palavra ou dar o equivalente em português é o mais fácil, mais rápido e o mais compreensível.

O problema é que a maioria das pessoas pensa que aprender uma segunda língua nada mais é que tentar simular a mesma situação em que você se encontrava quando aprendeu sua primeira língua. Sendo assim, traduzir o inglês estaria banido. 

A princípio parece fazer sentido, se eu aprendi minha primeira língua sem traduzir nada porque não tinha outro idioma na minha cabeça, então eu devo aprender uma segunda língua do mesmo jeito. Bingo! Porém não é bem assim.

O problema é que quando você aprende uma segunda língua, você já tem sua primeira língua na sua cabeça. Além disso existem outros fatores que não existiam no contexto de aprendizagem da primeira língua, que  agora passam a existir como questões emocionais em sala de aula, insegurança, medos, vergonha e também idade. 

Portanto, não se prenda a essa ideia de que traduzir é ruim ou que é coisa de iniciante. Muito pelo contrário, traduzir é bom, te ajuda e é um processo natural no aprendizado de um segundo idioma. Sendo assim, desde já eu te peço: traduza!

Onde traduzir o inglês te ajuda?

Então, por que traduzir o inglês? Na visão dos linguistas que defendem a tradução e que hoje são maioria, essa ferramenta estaria ligada ao fato de que traduzir aumenta muito a consciência do aluno em relação às semelhanças e diferenças entre uma língua e outra.

Isso quer dizer que alunos que são expostos a tradução geralmente criam mais consciência sobre as diferenças linguísticas e culturais, além de se tornarem alunos mais independentes nos níveis avançados. 

Assim, o estudante aprende a lidar com as diferenças sutis no uso das palavras das línguas que ele fala, o que aumenta e melhora o uso de vocabulário e a velocidade de aprendizagem. 

Traduzir o inglês também ajuda na sala de aula como um todo. O que se observou em algumas pesquisas foi que quando o professor traduzia, os alunos ficavam mais relaxados e menos ansiosos em sala. 

Isso se deve ao fato de que esses alunos sabiam que poderiam usar o idioma deles para tirar dúvidas e que o vocabulário aprendido poderia ser traduzido evitando outras dúvidas.

No geral, quando professores se recusam a traduzir o inglês, os alunos se sentem inseguros em relação à compreensão correta das explicações gramaticais e das palavras novas apresentadas a eles. 

Consequentemente, a tradução facilita muito o aprendizado da segunda língua tornando a sala de aula um ambiente mais tranquilo para os alunos. Parece ser besteira, mas as emoções que afloram em sala de aula tem total influência em como os alunos aprendem. 

Uma outra vantagem de traduzir o inglês é a colaboração entre alunos, também observada em pesquisas. Nesses casos, os alunos se sentem mais à vontade para ajudar uns aos outros ao saber que podem usar sua língua para facilitar a compreensão dos colegas.

Um dos principais papéis da tradução é intermediar. Isso quer dizer que, no fundo, aprender uma língua é quase que traduzi-la. Não tem jeito, principalmente em níveis iniciais, se você aprende uma língua, você vai traduzir mentalmente. 

Não se preocupe, isso não é demérito nenhum e nem coisa de quem não sabe nada, isso a nada mais é que agir como todo mundo que aprendeu uma língua um dia agiu.

Ainda sobre o papel da tradução, veja o que essa professora de um dos maiores cursos de Letras do país me revelou durante minha pesquisa de mestrado:

Entrevistada: A gente tem que usar a língua materna! A língua materna é a nossa ponte né, é o conforto para esse aluno, a possibilidade dele se sentir acolhido, dele entender que se ele não entender alguma coisa naquela língua estrangeira, vai ter ver a língua materna para … como que é a palavra para… para… dar um alento para ele né assim, para… para abraçá-lo certa forma.

Da interpretação da fala da professora, está claro o fato de que traduzir o inglês é uma ferramenta essencial, porque, como discutimos acima, ela intermedia e te dá mais segurança.

Mas quando traduzir o inglês?

Bom, o que a ciência deixa claro, é que a tradução deve ser usada de forma equilibrada sempre. Mesmo que nunca vamos pensar em uma segunda língua é necessário que o aluno receba insumo de segunda língua o suficiente em sala de aula. 

Ou seja, devemos traduzir o inglês para tirar dúvidas e facilitar nossa aprendizagem, mas não podemos ficar preguiçosos a ponto de querer aprender uma segunda língua em português. Lembre-se, para seu bem, você deve se expor à sua língua alvo o máximo possível.

Por fim, a maior parte dos professores vê traduzir o inglês como algo ruim porque eles querem simular o aprendizado de primeira língua numa sala de segunda língua, o que é um erro considerando que você já tem uma outra língua na cabeça.

Infelizmente, deixar de aproveitar a língua materna dos alunos é um erro em termos de eficiência, velocidade de aprendizado e desenvolvimento de autonomia. 

Fica claro também que traduzir o inglês ajuda a criar um ambiente mais leve onde os alunos vão se ajudar e colaborar melhor entre si. 

Ao mesmo tempo, esses alunos expostos a tradução vão estar mais atentos às diferenças e semelhanças interlinguísticas (isso é essencial) o que já é largar na frente de muitos outros alunos que estão presos a métodos de ensino antiquados.  

Fonte:

Análise da tradução em um livro didático da rede fundamental. 

http://repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/51459/1/2020_dis_rfarcenio.pdf

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