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Falar inglês igual nativo: é possível falar inglês de forma nativa?

Falar inglês igual nativo: é possível falar inglês de forma?

Comumente na internet existe um tipo de vídeo ou texto que circula nas redes que é o tal de “você vai falar inglês igual nativo”. Mas será que isso é possível? O que a Linguística tem a falar sobre isso?

Leia também: Como falar inglês fluente e como saber se já é fluente em inglês?

Tem gente ensinando você a perder sotaque – o que nunca vai -, tem gente falando que é questão de tempo e tem gente ensinando toda sorte de truques para você falar igual nativo.

É por essa questão ser de interesse dos alunos e extremamente explorada pelo marketing que eu vou tirar suas dúvidas hoje. Afinal de contas, como linguista, eu já cansei de ver esse tal de ‘falar igual nativo’ sendo jogado por aí.  

Dá para falar inglês igual nativo?

De cara eu te digo que suas chances de conseguir falar inglês igual nativo são tão pequenas que é praticamente impossível.

Infelizmente é tudo mentira ou ignorância de quem fala. Acredito que como qualquer um hoje pode sair por aí ensinando qualquer coisa na internet, talvez a ignorância fale mais alto. 

A base para a resposta está no processamento da linguagem que diferencia entre aprendizes e nativos. Assim, esse texto vai tratar do assunto do ponto de vista da psicolinguística. 

Temos que considerar, a priori, o que seria a Gramática Universal (GU). Essa teoria popularizada por Chomsky nos anos 60, indicaria que o ser humano tem um sua cabeça um sistema internalizado de regras que o permitiriam desenvolver a língua.

Adicionalmente, na visão de alguns linguistas, a sua GU estaria sujeita a um processo de desenvolvimento inato que teria duas partes: uma série de restrições aos parâmetros de suas representações mentais e um calendário de maturação (muitas vezes chamado Período Crítico) para emergência dessas restrições. Esses parâmetros – como ordem das palavras, por exemplo – é o que distingue os nativos de não-nativos.

É por causa desses parâmetros que nunca um aprendiz de inglês chegaria a falar inglês igual nativo. Isso ocorre devido ao fato de que passada a puberdade, seu calendário de maturação teria chegado ao fim, o que impossibilitaria um aprendiz de inglês se tornar nativo. 

Nem mesmo falantes de inglês que aprenderam antes da puberdade se tornariam nativos porque o insumo pode não ser suficiente, que é o que acontece mesmo em escolas bilíngues, por exemplo.

Ademais, outros linguistas apontam para o fato de que teríamos dois sistemas cognitivos ao iniciar a puberdade: o linguístico e o de solução de problemas. Esses dois sistemas competiriam no processamento de dados.

E seria essa mais uma explicação para o fato de que um aprendiz nunca vai falar inglês igual nativo. O primeiro sistema (o linguístico) estaria disponível até a puberdade e depois, para aprendizes, eles seriam obrigados a usar o segundo sistema(o de solução de problemas) que estaria em competição com o primeiro sistema. 

Parece que a competição entre esses sistemas, que acontece ao iniciar a puberdade, obrigaria adolescentes e adultos a usar o sistema de solução de problemas ao invés de usar o linguístico. 

Sendo o sistema de solução de problemas pouco eficiente para aprender línguas, o adulto então nunca conseguiria falar inglês igual  nativo. 

Essa obrigatoriedade viria do fato de que adultos estariam programados para aprender qualquer coisa usando o sistema de solução de problemas e o fato de haver competição entre os dois sistemas só piora as coisas.

A explicação dada acima, revela que psicolinguisticamente, o nativo aprende uma ou mais línguas de acordo com um sistema e o não-nativo com uma combinação de dois sistemas que competem entre si. Isso faria com que falar inglês igual nativo fosse algo quase impossível. 

Isso explica a diferença que se observa entre nativos e não-nativos muito embasada no fato de que nativos saem de uma posição de segurança para uma de insegurança e não-nativos vice-versa. 

Essa posição de segurança se revela no fato de que nativos começam pela busca de sentido, eles aprendem a língua oferecida a eles para construir sentido e controlar o ambiente. 

Já os não-nativos, por outro lado, possuem controle do ambiente provido pela sua língua materna, o que significa que eles têm que largar sua segurança e familiaridade na primeira língua para migrar para um ambiente de incertezas na sua segunda-língua.

O fato de já termos uma língua materna na cabeça quando aprendemos o inglês é um dos fatores que mais distinguem nativos e não-nativos porque estes últimos desenvolvem links entre as duas línguas. 

Ao desenvolverem o inglês, não-nativos podem criar segurança, porém a diferença de aquisição sempre deixaria o não-nativo em desvantagem, mesmo que em um dado momento ele possa performar parecido com um nativo em determinados momentos.

Quais as diferenças entre falantes nativos e não-nativos?

Como vimos até agora, falar inglês igual nativo parece praticamente impossível. É por isso que abaixo vamos listar aqui alguns pontos de divergência entre o nativo e o aprendiz que serão sempre pontos de divergência, esses ponto servem para demonstrar que falar igual nativo não é tão simples quanto se imagina:

  1. Flexibilidade de expressão: nativos podem variar grandemente o que estão dizendo e repetir a mesma mensagem inúmeras vezes para clarificar ou desambiguar as estruturas.
  1. Nativos dificilmente desistem de produzir linguisticamente, nesse sentido, nativos assumem que o que é dito para eles e o que eles dizem pode ser entendido. Assim, nativos não se frustram por não conseguir comunicar e essa é exatamente a maior frustração dos aprendizes.
  1. Alunos não entendem quando nativos conversam com nativos: as expectativas de inteligibilidade total entre nativos existe porque eles compartilham o mesmo idioma, assim sua fala é mais idiomática, menos articulada, mais ritualizada e mais rápida. Por isso não-nativos raramente conseguem fazer parte de uma conversa entre um grupo de nativos. Porém quando a inteligibilidade entre nativos e não-nativos é pouca ou zero, o mesmo sentimento de frustração ocorre. Nesses casos, os falantes assumem que o problema é a mensagem, numa conversa entre nativo-nativo em que não há inteligibilidade, os falantes assumem que há qualquer outro motivo para não haver compreensão. 
  1. Discurso espontâneo fluente: já discutimos fluência e ritualização em outro texto, porém a espontaneidade tem tudo a ver com esses dois termos. Não-nativos não conseguem controlar seu processamento da linguagem, e portanto não conseguem concatenar tantas frases em conjunto sem parar para pensar. Isso indicaria que não-nativos tendem a parar no meio da frase enquanto nativos só param no fim. É como se nativos tivessem um inventário de sentenças e padrões na cabeça disponíveis “na hora”. Daí o fato que se conecta com o apresentado acima, que não-nativos não têm o ritual e o conhecimento do contexto para compreender nativos falando entre si. 
  1. Paralinguística: além de expectativas de inteligibilidade, nativos têm expectativas paralinguísticas entre si: gestos, jeito de andar, movimentos de cabeça, expressão facial, postura e distância. Todas essas características revelam pertencimento à comunidade de falantes.
  1. Perda da língua: uma coisa que pode acontecer com qualquer aprendiz é se esquecer da língua que aprender com a falta de prática. Com nativos isso não aconteceria nunca, a não ser em casos de doenças cerebrais. Mesmo nativos que passam muito tempo longe de sua terra natal podem apresentar perdas do uso contemporâneo da língua se fixando ao uso de sua época, mas nunca esquecer o idioma que falam. 
  1. Não-nativos não tem idiomaticidade: o uso de expressões fixas ou gírias, obscenidades e pronúncia informal é julgado como “roubo linguístico” porque geralmente alunos erram o contexto de uso e nativos acreditam que essas expressões são reservadas a eles. Obviamente, nativos são muito menos tolerantes aos erros de não-nativos do que erros cometidos também por nativos. 
  1. Expectativas: com relação a comunidade de falantes e o pertencimento a ela é esperado que um nativo saiba como a língua funciona porque ele carrega a tradição linguística, o repositório da língua, exiba controle do discurso fluente e conectado, e tenha comando das estratégias de performance e comunicação. É esperado também que nativos se reconheçam entre si por causa de indicadores linguísticos, culturais, pragmáticos e paralinguísticos. 
  1. Intuições e idade: o nativo aprendeu sua língua quando criança e tem intuições sobre sua própria língua que um aprendiz pode não ter. Sua capacidade de produzir um discurso espontâneo facilitado pelo estoque de sua memória lhe permite ter uma competência comunicativa variada e extensa. Além disso, o nativo tem uma capacidade única de usar sua língua criativamente com a produção de metáforas, piadas e anedotas.

Então, dá para falar inglês igual nativo?

Até que medida o aprendiz pode falar inglês igual nativo? Como vimos anteriormente, existem muitos pontos em que a fala de um não-nativo se distancia da de um nativo. Porém, existem também certas características que podem ser aprendidas. A saber:

  1. Aprendizado antes da puberdade: com relação a isso não tem o que fazer. Nativos aprendem as competências necessárias durante a infância e por isso são considerados nativos. Passada a puberdade, você pode no máximo ser considerado um falante altamente proficiente.
  1. Intuições sobre a língua: pode ser possível com contato o suficiente e prática, acessar certas intuições sobre a língua de maneira limitada.
  1. Uso criativo: o aprendiz pode aprender diferentes maneiras de se expressar e serem aceitos como escritores de sua língua-alvo, porém o uso criativo será sempre limitado. Além disso, a questão da segurança aqui importa mais do que a competência linguística.  

O que se percebe é que todas as questões são basicamente “sorte”, exceto a número 1 a princípio. Isso significa que há o que fazer para se aprender a 2 e 3, mesmo que de maneira limitada.

O problema é que se nos perguntarmos o que é que se aprende quando criança, estaríamos falando de questões culturais e da ritualização da língua, o que mais uma vez depende da onde se nasceu e da cultura ao qual foi imerso.

Isso quer dizer que falar inglês igual a um nativo é também fruto de aceitação na comunidade, de segurança e atitude. Não é só uma questão puramente linguística.

Como conclusão, voltamos à pergunta inicial: dá para falar igual nativo? Se estamos falando de “sorte” e mostramos que algumas diferenças podem ser sobrepassadas com o treinamento, além de que a noção de nativo é idealizada por aprendizes, a resposta ainda é provavelmente não. 

O fator principal que é a idade de aprendizagem e o conhecimento cultural são dois grandes obstáculos para se falar inglês igual nativo e ser totalmente aceito como tal na comunidade de falantes, mesmo dispondo de vasto conhecimento linguístico, segurança e bom treinamento. 

Digo provavelmente porque com bastante exposição, em alguns momentos alguns nativos podem confundir aprendizes altamente proficientes com nativos, porém vai sempre chegar a hora em que suas limitações como aprendiz vão vir à tona. 

E aqui vai a realidade sobre falar uma segunda língua que ninguém vai te falar: pouquíssimos alunos conseguem falar uma língua fluente. As pesquisas mostram que a maioria “trava” no nível intermediário.

Portanto, tire imediatamente a idealização do nativo da sua cabeça e também essa ideia de que um dia você vai falar inglês igual nativo. 

Se este post clareou um pouco suas ideias, então eu te convido a ver outros posts que possam te ajudar a se expressar em inglês.

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